Sinopse:
A Sociedade do
Espetáculo, filme de 1973, é uma adaptação cinematográfica dirigida pelo mesmo
autor do livro homônimo de 1967, o filósofo francês Guy Debord. Autor de uma
obra fortemente intelectual, suas aventuras cinematográficas sempre geraram
resultados, no mínimo, únicos.
Este,
que é provavelmente seu filme mais conhecido, ilustra seus propósitos sobre a
sociedade de consumação, sobre o homem transformado em mercadoria, sobre o
império da aparência. A reflexão é longa e complexa (Debord faz uso rígido de
termos, estabelecendo diferenças minuciosas entre termos) e será transposta em
sua quase-integralidade ao filme.
A
maneira escolhida para fazê-lo baseia-se na seleção de imagens representativas
desses espetáculo, como corpos de mulheres nuas, vedetes (Marilyn Monroe, Os
Beatles), a tecnologia (veículos), os discursos políticos (Stalin, Mao
Tse-Tung). Essas imagens, por mais que interessantes, não constituem jamais um
discurso autônomo: elas só existem em relação direta com as palavras.
Isso
porque muitos trechos do livro são lidos integralmente na narração que
acompanha todo o filme. Uma voz ao mesmo tempo articulada e monótona entona
reflexões como “a organização revolucionária é a expressão coerente da
teoria da práxis que entra em comunicação não unilateral com as lutas práticas,
em devir para a teoria prática”, ou ainda “o tempo pseudocíclico é o do
consumo da sobrevivência econômica moderna, a sobrevivência ampliada”.
Não
seria absurdo pensar, portanto, que este filme intriga muito mais pelo seu uso
particular da palavra do que por sua relação com a imagem. O tempo da
literatura (no qual o leitor tem um papel ativo no controle da sua leitura, da
medida necessária para assimilar as idéias) é transformado na narração
agressiva e constante, na qual as palavras se sucedem justamente sem a noção de
tempo, de reflexão.
Ressalta-se
a virulência do discurso e o engajamento imediatista; mais do que o próprio
conteúdo, que se transforma gradativamente numa mensagem em espiral, hipnótica
quase, em relação igualmente cíclica com as imagens. O suporte filme parece
servir à Debord como ilustração do espetáculo (que é baseado fundamentalmente
no poder da aparência, portanto da imagem), enquanto o espectador conecta as
palavras que se repetem: “consumo”, “Marx”, “burguesia”, “aparência”,
“mercadoria”. A mensagem aparece em seu conjunto, de maneira geral, com algumas
perdas evidentes (conscientes?) das nuances textuais.
Do mesmo
modo, vez ou outra letreiros interrompem as imagens para citações de pensadores
famosos, em especial Marx. Esta nova forma de inserção da palavra, embora seja
essencialmente imagem, impõe-se com uma função semelhante àquela da narração. O
verdadeiro trabalho de construção aparece com a seleção de trechos de filmes
escolhidos por Debord.
Estas
obras célébres (filmes de John Ford, Orson Welles) são todas americanas, e
compõem o único momento sem narração, sem discurso pronto. Cabe ao espectador
enxergar a relação dos trechos escolhidos – que não debatem diretamente a
questão do consumo, aliás – com o conteúdo geral. Este é provavelmente o
momento de maior interesse da Sociedade do Espetáculo, quando os líderes
da ideologia burguesa, os EUA, aparecem resumidos em algumas imagens
ontológicas de sua produção cinematográfica.
Conforme
se desenvolve o discurso, pode-se destacar também a atualidade das idéias
propostas. O filósofo que se gabava de “ser um raro exemplo contemporâneo de
alguém que escreveu sem ser imediatamente desmentido pelos acontecimentos,
(...) nem uma única vez” fala de um sintoma contemporâneo que só parece se
agravar.
Pensando
a sociedade francesa, é difícil não associar à atual presidência a idéia de
“desprezo inerente ao político que se transforma em imagem”, ou então não
pensar nos turistas parisienses (e seus grandes ônibus que passeiam pela cidade
com pessoas ávidas por imagens, câmeras em punho) quando ele cita que “a
sociedade burguesa tirou do nosso turismo o tempo, e a transformou no prazer de
ir ver aquilo que se transformou em banal”.
Mesmo as
imagens de maio de 68 (bela parte documental, com trechos preciosos das
ocupações das usinas e da movimentação na Sorbonne) servem a ilustrar o único
modo de revolução que Debord admite como efetivo, como proposto mesmo para os
dias de hoje. A reflexão se encerra com a ideia da reprodução deste movimento,
assim como a proposta de uma meditação maior sobre a sociedade de consumo.
Interessante exemplo no qual o cinema se inclina diante da filosofia, A
Sociedade do Espetáculo constitui um caso especial em que o militantismo
impõe a sobreposição do objeto representado à sua forma de representação.
Dados do Arquivo:
Qualidade: DVDRip
Áudio: Francês
Legenda: Português
Tamanho: 699 MB
Duração: 01:27:18
Formato: AVI
Servidor: Mega
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Download:
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